Início > Devocional, Reflexão > O Medo de Si…

O Medo de Si…

Nota: Ontem ao conversar com um amigo sobre o artigo, pareceu-lhe confuso a utilização do termo “misantropia” no texto, o que mereceria um esclarecimento. O termo misantropia aqui utilizado não tem a conotação atribuída ao mesmo conforme se depreende de pesquisas feitas na internet, ou seja, aversão a humanidade, aos homens etc. A utilização do termo aqui tem uma conotação mais rousseauniana, isto é, a civilização corrompe o indivíduo, que nasce bom e assim permanece enquanto permanecer na solidão.Contudo, para que fique mais claro o real significado da coisa, me utilizo de duas categorias de Jung para deixar mais claro: O que o texto defende é a introversão – segundo Jung – ao invés da extroversão.

Talvez esse texto não passe de uma leviana justificativa para meu comportamento misantropo. Todavia, pode ser também que se trate de mais um clamor lançado pelo Espírito em busca de seus filhos perdidos. O assunto é amplo, são apenas prolegômenos. Escrevo sempre com a melhor das intenções, o que já é o bastante. Os fins justificam os meios.

Lembro-me que meu irmão costumava me chamar de “anti-social” simplesmente porque nunca fui muito adepto da chamada “vida social”. De fato, nunca gostei muito de sair de casa ou frequentar lugares muito badalados ou sociais. Nunca fui muito ligado à “galera”. Que eu me lembre, sempre tive essa tendência.

Sei que muitas vezes esse comportamento fez com que algumas pessoas me achassem arrogante, pernóstico, elitista ou coisas do gênero. Porém, posso garantir que não é nada disso.

É evidente também que esse caráter introvertido pode muitas vezes parecer puro egocentrismo ou até mesmo egolatria. Entretanto, se conseguirmos superar nossa percepção meramente sensorial, concluiremos que, em essência, este deveria ser o objetivo, ou ao menos o primeiro passo a ser dado por todo aquele que realmente deseja atingir estados de espiritualidade mais avançados em sua vida.

Para ser sincero, noto que a maioria das pessoas têm medo de estar consigo, têm medo de enfrentar o seu próprio “eu”.Sofrem daquilo que poderia se denominar de “carência social”, “fuga de si”. Pessoas há que se tiverem de passar um final de semana em casa, enlouquecem ou ficam deprimidas! Tem de inventar algum “programa”, alguma atividade. Não conseguem ficar consigo um instante sequer!

Recentemente terminei de ler um livro de Paramahansa Yogananda, um mestre hindu do século XX. É impressionante a importância que as religiões tipicamente orientais dão ao aspecto da “solidão” e da introspecção. Sem uma profunda entrega aos doces momentos de solidão, em que finalmente temos de encarar a nós mesmos, jamais será possível alcançarmos qualquer iluminação. É necessário estar consigo, travar profundos solilóquios a fim de nos libertarmos da ilusão “social” e da perda do eu em meio a multidão. Mutatis mutandis, o cristianismo, ontológico, tem a mesma mensagem. Nós é que ignoramos totalmente esse seu aspecto. Veja a vida de grandes cristãos (Agostinho, Francisco de Assis, Paulo, Jonathan Edwards, Tomás de Kempis só para citar alguns) e do próprio Jesus, e você verá pessoas que sempre souberam estar consigo. A meditação é algo extremamente produtivo, e não tem nada a ver com nova era ou panteísmo, que também se utilizam dela em certa medida. Somos uma geração que reflete apenas o que vem de fora, da “vida social”, e não o que vem de dentro, do nosso “eu”.

A vida social de muitas pessoas acaba se tornando o suicídio do próprio “eu”, algo fatídico, pois é exatamente lá que se encontra o nosso espírito, o que realmente somos. Sem um contato com nosso espírito, seremos apenas fantoches sociais.

Definitivamente não estou menoscabando a amizade ou as boas companhias. Contudo, lhes afirmo que as melhores amizades e companhias não são frutos de uma rede social (Orkut, Face Book etc.) ou do mero convívio social (igreja, trabalho, vizinhança etc.). São frutos, antes de qualquer coisa, da união de pessoas que, por terem aprendido a conviver e a se realizar consigo e com Deus, estão prontas para finalmente manter relacionamentos com seus próximos, sem que exista em tais relações inveja, disputas, malquerenças, intrigas, obsedações ou fixações.

As amizades sociais geralmente são muito pautadas em interesses afins ou em tênues convivências que, aos menores desentendimentos, são interrompidas. Amizade verdadeira dura para sempre. Amigo de verdade é aquele que aprendeu a não depender dos amigos para ser feliz, pois não tem medo de estar consigo. Jamais irá sufocar seus amigos exigindo deles alguma coisa em nome da “amizade”.

Enquanto eu não aprender a estar comigo, na quietude de meu espírito, jamais estarei preparado para qualquer convívio social sadio. Pelo contrário, serei uma pessoa carente dos outros, de baladas, festas, cinemas e “saídas”. Apenas mais um no rebanho. Minhas conversas em grupo serão sempre superficiais e improdutivas, sem vida.

Cristo disse certa vez que o Reino de Deus está dentro de nós (Lc. 17.21). A menos que aprendamos a buscar esse Reino, jamais estaremos preparados para qualquer outra coisa em nossa existência.

De seu amigo em Cristo, Duarte Henrique.

  1. Larissa Gama
    21/07/2011 às 12:14

    Jesus Cristo foi um defensor da introspecção, no sentido de que ele convida a cada pessoa a olhar para dentro de si mesma e descobrir quem é, compreender-se a si mesma, liderar a si mesma segundo os preceitos de Deus, para então poder ajudar os outros na caminhada junto ao Pai. Ele diz:

    “E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão.” (Mt 7: 3 ao 5)

    Esta passagem do Evangelho mostra claramente que a falta de reflexão a respeito de si mesmo ocasiona, leva, induz o homem à hipocrisia. Pois a pessoa que não consegue se perdoar e se compreender segundo a graça de Deus vai agir como os fariseus da época: vão condendar os outros e, em conseqüência, condenará a si mesma.

    Não que a mensagem de Cristo seja antropocêntrica. Ela é em sua essência teocêntrica. Mas falar do Criador é falar, também, da sua criação, a qual reflete a sua Glória. Nosso mestre ressalta que quando descobrimos o ser especial que há em nós, feito para a glória do nosso Criador, nós vamos olhar para o nosso próximo e ver que ele também é obra prima do Pai. Logo, quando sentimos e vivemos o amor pessoal de Jesus por nós é que então poderemos transmití-lo aos outros. Por isso Jesus diz:

    “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas.” (Mt 7:12)

    E é interessante que Jesus nos convida a fazermos uma introspecção segundo a Sua Palavra, palavra essa de vida eterna. Porque não podemos encontrar luz em nós mesmos, nem verdade em nós mesmos. A única luz verdadeira, que existiu desde antes da fundação do mundo é Jesus Cristo e Nele encontramos a vida eterna. Tiago, um dos Apóstolos de Cristo, diz:

    “Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural; Porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era.” (Tiago 1:23,24)

    O homem do exemplo dado por Tiago em sua epístola é aquele que se contemplou pela Palavra da Verdade (o Espelho) e se viu como realmente é. Mas, ao invés de permanecer e deixar que a verdade guie o curso de sua vida, ele “se vai e se esquece como era”. Isso acontece muito conosco! A Igreja hoje não sabe mais se contemplar segundo a Palavra de Vida Eterna de forma continua e eficaz e por isso muitos não tem idéia do quão bom é estar a sós não consigo mesmo, mas a sós com Cristo e sua Palavra, para assim desfrutar da vida em abundãncia que existe não dentro de si mesmo mas na Essência de Jesus Cristo, o desejado de todas as Nações!

    Abraços ;)

  2. Duarte Henrique
    23/07/2011 às 11:16

    Nobre Larissa, sempre acrescentando conteúdo aos nossos debates. Uma mulher de rara consciência teológica!
    Larissa, não sei já lhe falei, mas sou nascido e criado no evangelho. Meu pai, inclusive, é pastor.
    Contudo, ocorreu-me um pensamento interessante esses dias. Quando dizemos que devemos buscar a verdade na “palavra de Deus”, o que estamos dizendo? Estamos nos referindo ao aspecto objetivo da mesma, ou seja, a bíblia (logos) ou à palavra que é revelada constantemente (Rhema)? Digo isso, porque é fundamental compreendermos essa dicotomia. Acredito que o erro histórico no qual o cristianismo mergulhou foi exatamente o de se apegar excessivamente à palavra escrita, e se esquecer que a principal é a palavra viva e constante (Rhema). Essa sim é a que Deus nos revela diariamente e que, segundo venho descobrindo, está dentro de nós. A bíblia é um bom começo, mas não o fim da verdadeira espiritualidade.
    Já faz muitos anos que venho estudando as religiões “clássicas” orientais, mormente o budismo. Confesso que tenho uma profunda admiração pelos ensinamentos e doutrinas budistas. MAS CALMA, NÃO SOU BUDISTA. Sou cristão, mas faço aquilo que Paulo aconselhou certa vez: analiso tudo, e retenho o que for bom.
    Uma das coisas que sempre admirei no budismo é a ênfase que ele dá ao aspecto subjetivo da religião, o que também está presente no cristianismo, mas nós não percebemos com facilidade, pois nosso cristianismo é extremamente coletivizado: cultos, reuniões, doutrinas dogmáticas e impostas ao grupo, rituais etc.
    Dentro desse subjetivismo, tenho entendido que na verdade existe dentro de cada um de nós algo que nos une a Deus e ao próximo em extrema sintonia. Contudo, esse sentimento é constantemente obliterado por nossa vida cotidiana, que insiste em calar nosso espírito. Contudo, quando começamos a mergulhar em nossa subjetividade, nos desligando do mundo exterior, ainda que vez ou outra, deixando de nos preocupar com o que haveremos de comer, beber ou vestir, buscando em primeiro lugar o Reino de Deus, então somos presenteados com essa sintonia com Deus, por meio do Seu Espírito. O Espírito Santo nada mais é que a sintonia Divina que existe em tudo, mas que só é captada por aqueles que procuram se sintonizar com ela (Sei que parece meio budista mesmo, mas não é, creia).
    Quando começamos a valorizar nossa espiritualidade e entrar em contato com o “Todo”, logo percebemos que fazemos parte de algo bem maior.
    Dentro de nós, realmente não existe nada de bom, ao menos sob uma ótica egoísta do “eu” existencial. Contudo, se buscarmos nosso verdadeiro “eu”, aquele que é fruto da amorosa criação Divina, que nos sintoniza com nossa essência, aquilo que Paulo denomina de “homem interior”, aí sim descobriremos o prazer e alegria que só Deus pode nos proporcionar. Olhe para dentro de você e de alguma forma você também me verá, assim como eu a vejo.
    É isso que me faz sentir comunhão com Deus, com o universo, e com você.
    Abração minha amiga!

  3. Jardel
    08/09/2011 às 16:43

    poxa gostei muito! sou alguem que todos os dias tento entender a razao das coisas e busco ser o mais proximo possivel do projeto estabelecido por Deus pro ser humano!
    Dou graças a meu Deus por ainda existir Pessoas sabias que ñ se permitiram ser escravisados por este mundo e seu sistema obscuro!
    Grande abraçooooo

  1. No trackbacks yet.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: