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Reinvenção…

Saudações cordiais meus amigos. Uma vez mais o destino me traz aqui, a fim de compartilharmos um pouco mais sobre nossa complexamente simples existência. Sei que o texto é um pouco longo, mas o assunto é delicado e ainda assim receio ter sido omisso.

Venho passando por uma fase de intensas compreensões em minha vida. Na verdade eu não diria de compreensão, mas tomada de consciência, pois assim que iniciei meus estudos filosóficos logo percebi que algumas coisas estavam erradas em nosso meio

Recentemente tive a grata satisfação de me aprofundar um pouco mais numa pequena obra de Freud, da qual já havia lido trechos e comentários: O Mal Estar Na Civilização. Está disponível na internet. Recomendo altamente a leitura. O livro é riquíssimo em conteúdo. Mas, resumindo de modo bastante grosseiro, a conclusão a que Freud chega é a de que, basicamente, o fator que provocaria o “mal estar” na civilização, ou cultura como preferem alguns, seria a tensão existente entre o instinto de vida, projetado basicamente pela libido e que visa sempre a aglutinação dos homens, e uma espécie de instinto de destruição ou pulsão de morte, que visa sempre a subsistência individual. Lembra um pouco O Discurso Sobre A Origem da Desigualdade de Rousseau em alguns aspectos, além do Leviatã de Hobbes, inclusive mencionado pelo autor.

Não tenho mais espaço para me aprofundar aqui sobre o livro em si, seria necessário um artigo só para isso. Outrossim, o que sempre me causou espécie em leituras como essa, e isso sempre fica claro quando resolvemos nos aprofundar um pouco mais em nossa existência, é o fato de que a padronização que nos é imposta pela cultura e civilização definitivamente não seja algo bom.

Os padrões impostos começam a não se adequar a medida que vamos nos descobrindo. Isso tem uma razão simples, penso eu: Cada um de nós é um ser individual. Portanto, nossos valores e padrões de bem estar e felicidade também devem ser individualmente vividos. A razão do porque muitas vezes não existe um conflito nesse nível é que a maioria das pessoas simplesmente prefere se amoldar aos padrões e tabus já existentes. Isso é sempre mais cômodo, mas é também uma espécie de suicídio existencial. É difícil nos libertarmos do superego coletivo, mas isso é algo imperioso se realmente quisermos viver nossa felicidade ao invés de um modelo de felicidade preestabelecido.

Quando realmente decidimos intensificar nossa existência e não mais aceitamos qualquer valor sem que ele tenha passado antes pelo crivo de nossa consciência, logo começamos a esbarrar numa série de valores, regras e tabus sociais. Passamos então a ser pessoas subversivas, rebeldes, “ovelha negra”, anarquistas e inimigos da ordem. Não sem razão muitos homens que buscaram autonomia de pensamento ao longo da existência humana foram relegados ao ostracismo. Filósofos, teólogos, cientistas, pensadores, enfim, uma gama de pessoas cujo único pecado foi perceber que nossa existência é única e, portanto, nossa felicidade também.

Não existem modelos de felicidade preestabelecidos! Cada um de nós deve descobrir quem realmente é, pois só assim estará apto a saber qual é sua felicidade.

Há muito tempo me cansei de ter que ficar me anulando, me hostilizando e me reprimindo por ter de me amoldar à padrões impostos sobre família, sexualidade, religião e sociedade.Um dos dias mais importantes de nossa vida é o dia em que finalmente enxergamos a nós mesmos como seres individuais, com uma história própria, independentemente do que pensa o grupo no qual estamos inseridos. É claro que devemos assumir a responsabilidade por isso, mas essa atitude tornará nossa vida digna de ser vivida. Isso é ser “responsável por si mesmo”, frase que muita gente gosta de dizer, sem ter idéia da profundida que ela implica. Assumir essa responsabilidade é o primeiro passo para a intensidade e delírio que devem nortear uma vida única, sua.

Lembrei-me então da famosa poesia de Cecília Meireles: Reinvenção. A referida poesia contém, em minha opinião, uma das frases mais profundas já elaboradas pelo pensamento humano: A vida só é possível reinventada. Chego a ter um orgasmo espiritual. Meus amigos, uma vida que não for reinventada não é viável, não é digna de ser vivida!

Reinventar a vida é fazer aquilo que Descartes fez certa vez, quando simplesmente questionou todos os valores possíveis em sua existência! Num dado momento chegou a duvidar de tudo e de todos, inclusive de si mesmo! Descobrir que não existem padrões talvez seja um dos poucos padrões existentes…

Existem regras absolutas? Sim: Deus; a natureza; o sol nasce e se põe; nascemos e morremos; somos seres transcendentais. Fora isso, todo o resto é convenção humana.

Sei que muitas pessoas, algumas aprisionadas em suas convicções, e outras até bem intencionadas, virão a mim com um longo discurso teológico e fundamentalista, alegando uma serie de coisas, baseados na bíblia ou em outro livro que se aproxime dela em profundidade espiritual. Defenderão a existência de sistemas imutáveis aos quais simplesmente devemos nos submeter. Contudo, e me perdoem a acidez, mas muitas pessoas se escondem atrás de sua “piedade” por terem medo de descobrir quem realmente são. A verdadeira religião jamais será uma prisão! Muitos estão acorrentados dentro das igrejas! Mas não quero falar de igrejas, pois esse discurso vale para nossa civilização como um todo, e não apenas para o fenômeno religioso, muito embora este último sirva constantemente como instrumento de manipulação ideológica por parte de homens mal intencionados.

Também consigo imaginar sociólogos, psicólogos e filósofos mantenedores do status quo me acusando de louco, anarquista é liberal. E daí? Aceito todos esses adjetivos com os braços abertos! Cada vez mais me convenço de que só os loucos vivem de verdade.

Não estou advogando aqui uma completa sublimação gratuita dos valores e tabus de nossa civilização e cultura. Alguns deles até devem ter sido erigidos com boas intenções, a fim de manter-se a “ordem” e evitar-se “a guerra de todos contra todos”. Contudo, quando começamos a buscar profundamente nossa própria identidade, entendemos que fatalmente colidiremos com muitos deles. Alguns até “sagrados”…

Amigos e irmãos, reflitamos: A vida é por demais efêmera para ficarmos nos prendendo a valores e práticas que apenas refletem uma padronização nauseante. Viva sua vida da forma mais intensa e profunda possível, ainda que isso lhe custe a simpatia e as “punições” do superego coletivo. Mais vale um único dia verdadeiramente meu, que mil dias vividos dentro daquilo que é o “normal”.

Nietzsche disse certa vez que “as convicções são cadeias”. Não poderia estar mais certo. Quantas pessoas deixaram e deixarão de viver o que foi preparado exclusivamente para elas porque não terão coragem de se libertar de suas frágeis convicções? Sem bem que isso não deixa de ser o destino delas.

Quanto a mim, já decidi que viverei cada vez mais aquilo que Deus reservou exclusivamente a mim, e a mais ninguém. Ainda que isso “escandalize” a muitos.

Muito ainda teria para ser dito, mas paro por aqui. Quem sabe num próximo artigo. Que Deus, em Cristo, nos ajude cada vez mais a viver aquilo que foi preparado com exclusividade para cada um de nós. Esse artigo tem profunda conexão com o anterior.

Longa vida à reinvenção da vida! Abraços de seu irmão, Duarte Henrique.

  1. Larissa Gama
    18/08/2011 às 11:18

    Não podem acusar você de “louco, anarquista ou liberal”, pois seu artigo remonta exatamente o que Jesus disse aos seus contemporâneos a respeito de eles confundirem “convenções/regras/costumes humanos” com a “Lei de Deus”. O próprio Mestre disse:

    “Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens.
    Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas. E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição. Invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas.” (Marcos 7:9-13)

    Os ensinamentos humanos daquela época são diferentes dos de hoje, mas são iguais em sua essência porquê eles provém de pessoas e não de Deus. E “pecado” é desobedecer à Lei de Deus e não à lei dos homens… Vai parecer simplista para alguns, mas, o que foi que Jesus Cristo mais enfatizou aqui na Terra como “Lei de Deus”, mas que nós deixamos apenas no “plano teórico”, e muitas vezes com as atitudes a negamos dentro e fora da Igreja?

    “E Jesus, respondendo, disse-lhes: Porventura não errais vós em razão de não saberdes as Escrituras nem o poder de Deus?” (Marcos 12:24)
    “Aproximou-se dele um dos escribas que os tinha ouvido disputar, e sabendo que lhes tinha respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.” (Marcos 12:28-31)

    Ou seja, somando estes versículos com este: “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus” (1CO 10:31) aprendemos que pelo menos o básico do que Deus realmente quer! Que:
    1. Coração;
    2. Alma;
    3. Entendimento;
    4. Força e
    5. Vivência em comunidade (amor ao próximo) sejam para a glória Dele, Nele, por Ele e para Ele!

    Mas seria legal a reflexão mais profunda…Gostaria de saber se, em sua opinião, o que Deus tem exclusivamente preparado para cada um de nós possui um padrão e, se existe um padrão, onde ele está? Como saber exatamente separar aquilo que a “convenção cristã” criou/ordenou daquilo que verdadeiramente Jesus nos ensinou a viver?

    Responder a essa questão é deveras importante, embora trabalhosa para muitos de nós. =)

  2. Duarte Henrique
    23/08/2011 às 03:03

    Nobre senhorita Larissa,

    Meus elogios a você já se tornaram redundantes. Porém, mais uma vez não posso deixar de elogiá-la, pois você sempre me surpreende. É um moça ímpar, bendito seja Deus.
    O que você escreveu me lembrou uma máxima de Agostinho, e que para mim valida qualquer ato em nossa existência: “Ama e fazes o que quiseres”. Acredito que quando agimos amorosamente, mais movidos por um amor realmente genuíno, os fins sempre justificarão o meios. Noutras palavras, o amor verdadeiro e puro justifica todas as coisas. Tenho para mim que o único padrão que Deus destinou a cada um de nós é o amor incondicional que ele mesmo demonstrou de modo simples e singelo, nos dando seu único filho. Não acredito que nada em nossa vida aconteça aleatoriamente. Tudo tem um propósito. Além do mais, tenho de entender que Deus me fez um ser único no universo inteiro. Como diria o filósofo espanhol Ortega y Gasset, absolutamente ninguém vê o mundo como eu vejo, pois meus olhos são únicos. Desse modo, todo um universo com valores e verdade feitas por Deus exclusivamente para mim, surge sempre que consigo me libertar das amarras da tradição e dos tabus sociais, religiosos e, muitas vezes, pessoais. Quando temos a coragem de olharmos para nós mesmos e mergulharmos no profundo de nosso ser, rompendo paredes que muitas vezes nós mesmos construímos ou deixemos que sejam construídas, começamos a entender qual realmente é o nosso destino. É claro que nem todos chegarão a esse ponto. Entretanto, àqueles que conseguirem ir além da “tradição”, do valor “absoluto” e dos tabus, estará garantido o dom precioso da autenticidade. É claro que isso é um dom de Deus.
    O cristianismo é de fato uma criação humana. Jesus jamais o ensinou. Aquilo que Jesus deveras ensinou, você e eu já sabemos: amar e amar. Se formos pensar mais profundamente, os dois mandamentos de Jesus na verdade são os mesmo, pois quando amamos a Deus, amamos ao próximo; e quando amamos ao próximo verdadeiramente é impossível não amarmos a Deus, fonte desse amor.
    Larissa, nossa vida pode ser única, e existem coisas que Deus reservou exclusivamente para você, por mais que outras pessoas não entendam. Todavia, no fundo você sabe qual é sua vocação. Isso é o que faz da sua vida algo único.
    Talvez você pense: “Mas a maioria das pessoas vive uma padrão de valores, tabus e tradições! Será que existe algo além disso? Será que existe algum tipo de espiritualidade diferente dessa? Algum tipo de amor diferente? Algum tipo de loucura diferente?”. Existem minha cara, os que foram feitos pra você. Sempre existirão os espíritos livres, como diria Nietzsche, que falava a verdade, mas não conseguiu vivê-la inteiramente.
    Abraços cordiais!

  3. Larissa Gama
    23/08/2011 às 11:28

    Caro Duarte Henrique,

    Devo dizer-lhe que para mim é sempre uma satisfação vir aqui dialogar com você a respeito da vida cristã, em vários aspectos, no sentido de crescermos espiritualmente uns com os outros. Muito o admiro pela coragem de expressar claramente seu ponto de vista, conceitos, etc. O bom de se ter um blog é justamente isso: podemos nos expressar livremente! ;)
    Bom, não que eu queira aproveitar-me de sua nobreza (e paciência de ler meus comentários demorados), caro amigo, mas eu ainda gostaria de ressaltar alguns pontos do assunto em tese… Posso? rs…
    A verdade biblica do Evangelho é um legado do nosso Senhor Jesus e dos Pais da Igreja (movidos pelo Espírito Santo) de como deve ser o organismo vivo do Corpo de Cristo hoje e sempre. É uma riqueza ler os dois primeiros capítulos de Apocalípse sobre o Cristo Ressuscitado e sua Igreja, bem como também o 5º ao 10º capítulo do Evangelho de Mateus, os quais são pepitas de ouro para nós e, em minha humilde opinião, se os Líderes pomposos de grandes ministérios meditassem mais nas palavras simples e iluminadas do Mestre muitos erros, heresias, decepções e intempéries dentro da Igreja seriam evitados…
    Usando a linha de raciocínio que chegamos no nosso diálogo, podemos ver que nas igrejas existem costumes, regras humanas que são tidas como “lei de Deus”, mas não passam de coisas inventadas por homens…As crônicas do MP em ” Abusos e Costumes” existe uma exposição realmente criativa e concreta do que ocorre muitas vezes no corpo de Cristo: usam a Palavra de Deus (- isolada – e não coesa com o Todo da Bíblia) para justificar sua liderança arbitrária. É neste ponto que eu creio que devemos distinguir aquilo que Jesus realmente ensinou no Sermão do Monte e no Sermão Final às Igrejas (que estão em Apocalípse) do que nos ensinam os costumes batistas, assembleianos, metodistas, presbiterianos, luteranos, anglicanos, ortodoxos, etc…você não acha?
    Estes ensinamentos de Cristo servem, igualmente, para usarmos a nossa liberdade cristã que, como toda liberdade, deve ser pautada na revelação do Evangelho de Cristo.
    Sendo mais específica e ousada, creio que igrejas onde mulher tem que usar saia/véu (e se não usa é “pecado”), assistir TV/Jogo de Futebol/etc é “pecado”, faltar o culto de domingo para passear com a família é “pecado”…estão colocando costumes como lei de Deus. Por outro lado, elas também colocam no “ápice” da “unção” manifestações “externas” de “espiritualidade”, com afirmações como: só é “ungido” quem “fala em linguas”, quem “cai no espírito”, quem “rir” ou “chora” sem parar, fora manifestações absurdas ditas como “espirituais” que estão surgindo no neopentecostalismo, que definitivamente não se encontram na Palavra de Deus, nem na Igreja Primitiva. Tais parâmetros de “espiritualidade” nunca foram usados por Jesus para dizer qual Igreja era aprovada ou não pelo Pai.
    E este tipo de situação tem desanimado muitos na sua fé por não conseguirem atingir os “objetivos” de suas igrejas locais, por não se enquadrarem em seu tipo de “espiritualidade elevada”! Muitos pensam que nem são dignos de ter certos “dons” do Espírito por não terem as mesmas experiências que outros têm… Mas Jesus Cristo tem outros métodos de avaliação e aprovação de seus filhos. Apenas dois exemplos:

    >”Conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à prova os que dizem ser apóstolos, e o não são, e tu os achaste mentirosos.Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor.” (Igreja de Éfeso -Ap. 2:2-4)
    >”Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás.Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.” (Igreja de Esmirna – Ap.2:9-10)

    Por que esses lideres colocam fardos nos discipulos que nem eles mesmos podem carregar? Fica a reflexão.

  4. 27/08/2011 às 15:27

    Grande Larissa,

    É para mim um imenso prazer ler seus comentários. A extensão de um texto para mim nunca foi objeção. Muito pelo contrário. É bem verdade que algumas pessoas são prolixas. Mas esse, definitivamente, não é o seu caso. É sempre bom dialogar com quem tem conteúdo. Ademais, estamos refletindo sobre um assunto assaz complexo. Um verdadeiro ponto de inflexão em nossa vidas. Eu entendo bem a distinção que você propõe. Ele é fundamental! É o mínimo que um cristão comprometido com sua própria existência deve fazer. Saber o que deveras é mandamento divino, e o que é “costume” ou “tradição” humana é imprescindível a fim de mantermos uma liberdade sóbria em Deus. Entretanto – você foi ousada e permita-me sê-lo também… O que digo a você agora não deve ser uma regra, nobre senhorita. Tampouco deve ser objeto de uma opção leviana ou precipitada. É na verdade ousar uma utopia, quiça perigosa, mas que faz da nossa vida algo único. Outro dia fui conversar com um pastor presbiteirano, a pedido dos meus pais. Acham que a filosofia às vezes me faz delirar. “As muitas letras te fazem delirar”, pensm eles, mal sabendo que Paulo estava certo… O pastor era um homem muito simpático e culto. Nossa conversa foi agradabilíssima. Contudo, pude perceber então que eu e ele partíamos de premissas diferentes, axiomas diferentes, bases diferentes. Ele, assim como a maioria esmagadora da humanidade, partia de premisas objetivas, ou seja, existem coisas que simplesmente nos são dadas, contra as quais nada podemos fazer. Dentre essas coisas “dadas”, ele apresentou a premissa de um “Deus revelado”, base do cristianismo ortodoxo em todas as suas vertentes. Nesse perspectiva, aceitamos “pela fé” essa premissa, e apartir dela construímos todos os nosso valores, tradições, regras morais e espirituais. Eu , por minha vez, de modo bastante ousado, e por isso mesmo mais raro entre os homens, decidi “subjetivizar o mundo”. Quer dizer, construir todos os valores de minha existência a partir de minha consciência. “Penso, logo existo”, diria Descartes. Dentro dessa perspectiva, todo o constructo de nossa existência é feito a partir do sujeito. Aqui não falamos em “Deus revelado”, mas sim num “Deus intuido pelo sentimento” (Schleiermacher), encontrado na criação e em nossa racionalidade. Não significa que eu vá rejeitar todos os valores existentes. Contudo, nenhum valor pode ser aceito simplesmente por que “é assim que as coisas são”, expressão que sempre ouvi bastante. Ele me disse que isso era algo muito perigoso, pois a tendência de me tornar uma pessoas arrogante e egocêntrica seria muito grande. Pois bem, nisso ele acertou. Logo cedo percebi o perigo de me tornar uma pessoa assim. Portanto, resolvi estabelecer uma única premissa básica da qual eu partiria na construção de minha existência: o amor. Todo valor, toda tradição, enfim, toda a existência que eu construir subjetimente do mundo deverá passar pelo crivo desse sentimento que, em última instância, sequer é preciso de fé para vivenciá-lo, pois ele se encontra presente em toda criação de uma forma especial. Sei que esse paradigma por mim adotado é perigoso, mas como disse, vou ousar a utopia. Pode até ser que um dia me arrependa de ter
    “construído meu mundo”. Mas algo em meu espírito diz que, confiando no amor desse Ser Eterno, ao qual convencionamos chamar “Deus”, estarei em boas mãos e seguro no universo, vivenciando toda intensidade de uma existência única.
    Continuo acreditando no destino, pois acredito que esse seja o meu, e talvez o de mais ninguém…
    Abraços senhorita, e amiga de reflexões.

    PS: Você fala de respostas longas, mas a minha não foi nada curta. rs…

  5. Larissa Gama
    27/08/2011 às 18:38

    Caro amigo e irmão em Cristo,

    Creio que nós filhos de Deus deveríamos observar mais a natureza.
    O Salmista Davi partia da Criação para exaltar a Deus e conhecer como o Criador se relaciona com a sua obra de suas mãos.
    O que eu pude perceber na natureza (não que eu seja uma especialista, sou uma simples observadora rs…)é que NENHUM (permita-me dar ênfase a esta palavra) ser que Deus criou são iguais. Eles possuem algo em comum, que os torna apenas semelhantes, mas o termo “semelhante” não tem o mesmo significado de “igual”.
    Vou dar um simples exemplo: eu sempre criei cachorro (tive duas cadelas, aliás), adoro este animal de estimação e eu particularmente posso dizer que sou boa em lidar com eles. Mas eu nunca tinha tido uma oportunidade de lidar com gatos e, no dia em que eu tive a oportunidade, me senti bem estranha, pois eles são igualmente fofinhos, engraçadinhos, inteligentes e espertos mas, DEFINITIVAMENTE (permita-me dar ênfase, mais uma vez) não pude lidar com eles da mesma maneira que eu faço com os cachorros. Confesso a você que eu tive muita dificuldade em lidar com eles e me senti muito incomodada por não ter conseguido prender a atenção deles para mim, no início (cheguei a pensar que eu jamais gostaria de gatos! rsrs)e, perguntei a Deus: “Nossa, mas como eu faço para criar essa gatinha que está na casa da minha avó? É muito dificil Senhor!” E depois desta curta e intensa oração Deus foi me mostrando a personalidade ímpar dos gatos e que eles podem ser igualmente companhias tão agradáveis como os cachorros e hoje eu adoro gatos porque eu descobri como lidar com eles. E com isso entendi que Deus estava me mostrando que o mesmo é conosco, seres humanos, não somos iguais (apesar de sermos semelhantes) e Deus sabe tanto da nossa singularidade que o próprio Cristo não lidava com seus discípulos da mesma maneira… Então porquê queremos nos padronizar ao ponto de tirarmos de nós a singularidade que o próprio Criador nos deu?
    Não defendo uma separação total entre as pessoas pelo fato de elas serem “diferentes” (embora semelhantes, reitero uma vez mais) mas defendo que Deus se relaciona conosco, mediante a Sua Palavra e o seu Espírito com cada um de nós de forma realmente peculiar, pois só Ele nos sonda e nos conhece como verdadeiramente somos…Creio que o Salmista e Rei de Israel, Davi, percebeu isso e ele entoa ao Criador como Ele consegue lidar com nossas peculiaridades de forma a nos incluir no Seu Reino de forma complementar, nos colocando no centro da Sua vontade e no lugar onde nos sentimos mais perto Dele no corpo de Cristo!
    Devemos entender que as nossas diferenças em Deus é para a edificação da Igreja e não para a sua divisão e destruição… Porque a partir do momento em que eu respeito a singularidade do meu próximo eu me permito também ser eu mesma e adorar a Deus e viver para Ele em espírito e em verdade.

    Abraços, Paz do Senhor! ;)

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