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No Divã de Cristo

Saudações meus amigos.

Já faz tempo que venho meditando numa conhecida passagem bíblica: a da mulher samaritana. É um texto profundo, rico em lições e significados espirituais. Uma análise completa demandaria um livro inteiro, creio. Entretanto, gostaria de mencionar apenas um aspecto que minha leitura, algo sempre subjetivo é claro, revelou a mim. Caso lhes seja útil, façam bom uso. Senão, relevem ou mesmo ignorem. Como já disse é uma passagem conhecida. Portanto, furto-me ao dever de descrevê-la aqui. Entretanto, caso você não conheça a história ou não se lembre bem, remeto-lhe ao evangelho segundo escreveu João (4:1-42). Lá você encontrará a descrição da história.

A coisa que mais me chama a atenção nessa passagem é o fato de Jesus pedir àquela mulher que chamasse seu marido, muito embora soubesse que ela não tinha um. Ora, se Jesus sabia de antemão que a mulher já havia sido casada cinco vezes, e que o homem com quem vivia na ocasião não era seu marido, por que pediu a ela que chamasse seu marido? Estaria Jesus sendo sádico, brincando com os sentimentos daquela mulher? Uma leitura leviana do texto ignora essa questão, ou, no mínimo, a deixa sem resposta.

Entretanto, ao ler o texto com mais cuidado, surgiu para mim uma hipótese que revela a profundidade ímpar de Cristo. Logo na seqüência é possível entender que Jesus desejava ensinar uma verdade espiritual profundíssima àquela mulher: a verdadeira espiritualidade é livre de formas, tradições e modelos, sendo algo que nasce do íntimo do ser humano, de seu espírito, espontaneamente (21-23). É difícil imaginar algo mais profundo sobre espiritualidade humana do que esse ensinamento de Jesus.

Contudo, para que aquela mulher estivesse pronta para compreender essa colossal realidade espiritual era necessário que antes uma coisa fundamental acontecesse: sinceridade absoluta, principalmente para com ela mesma. Aqui entra o pedido de Jesus, bem como minha hipótese: na verdade, penso eu, o que Jesus queria daquela mulher era que, ao menos naquele momento fundamental de sua existência, ela fosse sincera consigo mesma e reconhecesse sua situação, quem de fato ela era. É provável que aquela mulher sofresse grande ostracismo em sua comunidade, talvez por conta dos sucessivos fracassos conjugais. Tanto é que ela estava indo buscar água no poço em pleno sol do meio-dia, escaldante! Quem vai buscar água num poço esse horário? Talvez não estivesse querendo encontrar outras pessoas, que certamente apontariam o dedo e fariam comentários ofídicos e ferinos (ilação minha). Além disso, aquela mulher, piedosa e bastante religiosa, provavelmente vivia uma vida mergulhada em profunda crise existencial, com múltiplas faces, “máscaras” e uma baixa auto-estima. Além de já ter sido casada cinco vezes, isto é, uma mulher sofrida em seus relacionamentos, atualmente vivia em relação instável, de mera convivência, talvez por não mais acreditar em casamento. Além disso, era dona de casa, mulher inserida numa comunidade e que possuía um histórico de rejeição. Somando-se a tudo isso ainda era religiosa, e no pior e mais inocente sentido: o da forma e do rito (v. 20).

Entretanto, em meio a todo esse emaranhado existencial, naquele momento Jesus queria uma única coisa dela: sinceridade para com ela mesma. Que assumisse sua condição, sem subterfúgios ou desculpas. Apenas o que ela era. É isso o que Deus sempre deseja de nós, autenticidade.

Fico pensando então, quantas pessoas vivem atrás de máscaras tentando justificar seus fracassos e existências fracionadas, ou então se transformam em escravas de formas e modelos religiosos opressivos, que escravizam e massacram.

Quantas vezes acreditamos que se passarmos uma boa imagem para a família, para o cônjuge, noivo, namorada, para os colegas de trabalho ou para as pessoas na igreja tudo estará bem? Quantas pessoas se aniquilam ao longo de toda sua vida simplesmente porque jamais conseguiram ser sinceras consigo mesmas como aquela mulher foi aquele dia? Além de fatídico, isso é algo ilusório, pois existem duas pessoas que você jamais conseguirá enganar amigo. Uma delas sem dúvida é o Criador, que lhe conhece tanto quanto ou melhor que você mesmo se conhece. A outra pessoa que você jamais conseguirá enganar é você mesmo! De que adianta viver uma vida de aparências, fingindo que tudo está bem quando no fundo você sabe que não está? Não existe escravidão pior do que aquela em que ficamos presos em nós mesmos… Quantos de nós não nos transformamos em verdadeiras hidras, vivendo uma série de personagens (cristão, trabalhador, cidadão, filho, pai, mãe, amigo etc.) com medo de assumirmos para nós mesmos o que somos? Mais do que perfeição, Deus quer integridade. Apresente tudo que você é a ele, ainda que não passe de cacos. É melhor um monte de pedaços com os quais se possa construir um todo, que uma bela peça, mas incompleta.

Naquele dia, ao assumir para si sua situação, aquela mulher foi liberta de um julgo terrível, qual seja, o da aparência, das máscaras, dos personagens que devia interpretar. Só existe verdade na sinceridade e o pressuposto da verdade é a sinceridade.

Deus nos quer sendo o que somos, e não o que achamos que somos ou o que gostaríamos que fôssemos. Aquela mulher poderia simplesmente ter se virado para Jesus dizendo que iria chamar seu marido e em breve estaria de volta. Certamente jamais retornaria, pois novamente mergulharia em sua rotina de enganos e ilusões.

E você? Tem voltado para “buscar” seu marido? Ou já assumiu perante o Criador e, principalmente, perante você mesmo quem você é?

Que Deus, em Cristo, ilumine nosso caminho e destino, hoje e sempre.

Abraços fraternais.

  1. 16/09/2011 às 23:16

    “…Esqueça o tempo de aflição, mas nunca esqueça o que ele lhe ensinou…”

    Admitir que erramos ou que falhamos ou enxergar o que realmente somos em determinada situação e momento da vida muitas vezes causa aflição, mas Jesus nos ensina que devemos nos preocupar não em lamentar nossa condição e sim aprender com a vida… A vida nada mais é do que a faculdade do Senhor…

    “Achegai-vos a mim, todos vós, que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei, pois sou manso e humilde de coração, meu julgo é suave e o meu fardo é leve…” Diz Jesus Cristo a cada um de nós a cada nascer do sol, quando se renova a cada manhã as misericórdias do Senhor.

    Amém! =]

  2. Duarte Henrique
    17/09/2011 às 01:10

    É isso mesmo senhorita Larissa, sábias palavras, como sempre. Deus sempre tem coisas novas para nós. Nessa grande faculdade divina que é a vida, o primeiro passo para aprender é reconhecer que pouco sabemos. Aceitar o que somos é o primeiro passo para conquistarmos quem somos.
    Abração minha amiga!

  3. Adson Freitas
    03/01/2012 às 23:00

    Excelente reflexão…
    Já havia lido esse texto algumas vezes, mas nunca analisando desta maneira.
    Que o Sr. Jesus continue a te abençoar.
    Abraços!!!

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